Situado na Rua Dr. Donato, n.º 15, o edifício conhecido como Antigo Hospital da Misericórdia é atualmente a sede da Santa Casa da Misericórdia de Amieira do Tejo. Inaugurado em 1920, representa um dos testemunhos mais significativos da história assistencial da instituição e da comunidade amieirense.
A assistência hospitalar antes do atual edifício
A assistência aos doentes pobres encontra-se documentada em Amieira muito antes da construção do atual edifício.
No estudo publicado por Tude Martins de Sousa em 1932, é transcrita uma inscrição de 1642 que menciona a obrigação de manter três camas para o hospital e a respetiva casa preparada com o necessário. O Tombo de 1822 volta a registar o dever de conservar o hospital dos pobres e de manter três camas destinadas à assistência.
As antigas contas da Misericórdia referem igualmente despesas com hospitaleiros e doentes hospitalizados. Estes documentos comprovam a existência de uma atividade hospitalar continuada, embora não permitam identificar com segurança todos os edifícios onde foi exercida.
Os hospitais da Rua do Castelo
Segundo a monografia Amieira do Antigo Priorado do Crato, o hospital funcionou inicialmente numa pequena casa térrea, coberta de telha vã, situada no lado sul da Rua do Castelo, a quinta casa a contar da Praça.
O imóvel possuía apenas dois compartimentos, localizados abaixo do nível da rua, e um pequeno quintal. As reduzidas condições do edifício mostram a modéstia dos primeiros meios disponíveis para o acolhimento dos doentes.
Em 1864, o hospital foi transferido para outro prédio pertencente à Irmandade, igualmente situado na Rua do Castelo e com frente também para a Travessa da Misericórdia. Esta mudança representou uma melhoria, mas não resolveu definitivamente a necessidade de instalações adequadas.
A construção do novo Hospital
A solução definitiva chegou no início do século XX, com a construção de um edifício concebido especificamente para funcionar como hospital.
De acordo com a mesma monografia, o projeto e a direção da obra ficaram a cargo de António Gonçalves Rasquilho, que também cedeu gratuitamente o terreno onde o Hospital foi construído. Este contributo tornou-o um dos principais beneméritos da instituição.
A obra começou com recursos provenientes de saldos de contas da Misericórdia, esmolas e donativos. Em 1916, a instituição requereu à Direção-Geral da Assistência um subsídio de 1.889$00, correspondente ao valor então orçamentado para a conclusão dos trabalhos. A documentação consultada comprova o pedido, mas não permite afirmar, sem reserva, que o subsídio tenha sido efetivamente concedido.
O novo Hospital foi concluído e inaugurado em 1920, recebendo nesse mesmo ano os primeiros doentes.
Para assegurar o funcionamento hospitalar existiram historicamente os cargos de hospitaleiro e hospitaleira, cujos titulares eram nomeados pela Mesa da Irmandade.
Memória fotográfica
As fotografias antigas conhecidas mostram o Hospital com uma composição simétrica, formada por um corpo central mais elevado, alas laterais, escadaria de acesso e recinto delimitado por muro.
Uma dessas imagens foi publicada com a legenda «Hospital» na monografia Amieira do Antigo Priorado do Crato, de 1936. Outra fotografia, que apresenta uma vista frontal particularmente nítida do edifício, encontra-se identificada como proveniente do espólio dos irmãos António e Luís da Silva Barata.
Enquanto não forem encontrados os respetivos registos originais, a data e a autoria destas fotografias devem ser apresentadas como não apuradas.
Da assistência hospitalar à sede institucional
Depois de ter servido a comunidade como Hospital da Misericórdia, o edifício assumiu novas funções e é hoje a sede da Santa Casa da Misericórdia de Amieira do Tejo.
A designação Antigo Hospital preserva a memória da sua função original e das gerações de benfeitores, dirigentes, trabalhadores e profissionais que nele prestaram assistência à população.
No ciclo de 2026–2027, o edifício foi também escolhido como um dos espaços do programa de extensão científica à comunidade “Da História Regional e Local ao Turismo Histórico — Diálogos Interdisciplinares”, incluindo a sessão de abertura de 29 de agosto de 2026 e outras iniciativas dedicadas à investigação, aos arquivos e ao património local.
Mais de um século depois da sua inauguração, o Antigo Hospital continua, assim, ao serviço de Amieira do Tejo: lugar de memória, sede institucional e espaço de encontro entre o passado e o futuro.
Nota documental
Na pesquisa efetuada até 18 de agosto de 2026, não foi localizada uma ficha autónoma deste edifício no inventário público SIPA, nem um processo digitalizado da antiga Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.
Esta ausência nos catálogos digitais não prova que não exista documentação no arquivo físico. Importa também recordar que o Hospital foi concluído em 1920, enquanto a DGEMN apenas foi criada em 1929. Por esse motivo, o projeto original não deve ser atribuído àquela Direção-Geral, embora o seu arquivo possa conservar fotografias, levantamentos ou processos relativos a intervenções posteriores.
Fontes principais
SOUSA, Tude Martins de — «A Misericórdia de Amieira (do antigo Priorado do Crato): a sua antiguidade, a sua campainha, o seu compromisso», Arqueologia e História, 6.ª série, vol. X, 1932, pp. 119–128. Disponível na 6.ª série da revista da Associação dos Arqueólogos Portugueses.
SOUSA, Tude Martins de; RASQUILHO, Francisco Vieira — Amieira do Antigo Priorado do Crato. Lisboa, 1936; edição fac-similada, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982, capítulo «A Misericórdia e o hospital», pp. 445–496.
Santa Casa da Misericórdia de Amieira do Tejo — Programa “Diálogos Interdisciplinares”.



