Capela da Misericórdia

Situada no antigo núcleo urbano de Amieira do Tejo, a Capela da Misericórdia — também designada nas fontes históricas como Igreja da Misericórdia — foi o principal espaço religioso e cerimonial da Irmandade. A sua história encontra-se ligada ao culto, às cerimónias fúnebres e à missão assistencial desenvolvida pela Santa Casa ao longo de vários séculos.

A sobriedade do edifício não diminui o seu valor. A capela conserva importantes testemunhos da arquitetura religiosa quinhentista, da vida confraternal e da assistência aos pobres, encontrando-se classificada como Monumento de Interesse Municipal desde 2017.

A data de 1554

Sobre o portal encontra-se gravada a data de 1554, acompanhada por uma inscrição latina abreviada. Esta data é geralmente associada à construção, conclusão ou entrada ao culto da capela, não devendo ser apresentada como a data de fundação da Irmandade, que poderá ser anterior.

Em 1759, a resposta de Amieira às Memórias Paroquiais já declarava existir na vila uma «casa e igreja da Misericórdia, que por antiquíssima se não sabe da sua origem». O testemunho confirma que, em meados do século XVIII, se perdera já a memória exata da instituição do templo.

Arquitetura e património artístico

A capela apresenta nave única, coberta por uma abóbada de nervuras de tradição manuelina, com bocetes decorados, e capela-mor retangular. O portal renascentista, de linhas simples, constitui uma interpretação local de modelos arquitetónicos eruditos do século XVI.

No interior destacam-se o púlpito de madeira, apoiado numa estrutura de pedra e servido por escada de granito, o arco que separa a nave da capela-mor e a grade de madeira associada ao espaço do altar. Uma descrição histórica refere ainda uma antiga porta lateral voltada para a Rua do Castelo, posteriormente fechada, e uma pequena sacristia no lado da Epístola.

O retábulo-mor combina elementos decorativos de transição entre o rococó e o neoclassicismo, incluindo motivos concheados e de «asa de morcego». As imagens nele conservadas são tradicionalmente identificadas como Santa Isabel, Santa Luzia e Santo Amaro.

A campainha histórica de 1550

Entre os mais singulares bens associados à Misericórdia encontra-se uma pequena campainha de bronze datada de 1550. Tude Martins de Sousa descreveu-a, em 1930, como uma peça de forma elegante, com 85 milímetros de altura e 98 milímetros de diâmetro máximo, salientando o seu interesse histórico e a necessidade de ser cuidadosamente conservada.

A campainha era utilizada atrás da bandeira da Misericórdia no acompanhamento dos enterros. Apresenta três faixas de inscrições e pequenos relevos:

  • na parte superior, em caracteres góticos: O MATER DEI MEMENTO MEI — «Ó Mãe de Deus, lembra-te de mim»;

  • na faixa intermédia: AVE GRATIA PLENA — «Ave, cheia de graça», com pequenos elementos figurativos;

  • no rebordo inferior, em neerlandês arcaico: IC BEN GHEGOETEN INT IAER MCCCCCL, indicando que a peça foi fundida em 1550.

A língua da última inscrição relaciona a peça com o espaço cultural dos antigos Países Baixos. Tude Martins de Sousa considerou-a de origem holandesa, mas não é ainda conhecida uma investigação técnica que permita identificar com segurança a oficina onde foi produzida ou o percurso que a trouxe até Amieira.

O ano de 1550 corresponde à data da fundição da campainha. Não prova que tenha chegado à Misericórdia nesse mesmo ano, embora a tradição e a proximidade da data de 1554 permitam relacioná-la com os primeiros tempos da capela.

Esta campainha portátil não deve ser confundida com o sino colocado no campanário de pedra existente na fachada.

A lápide de 1642

Na frontaria da Capela da Misericórdia conserva-se uma importante inscrição em pedra, com cerca de 1,50 metros de altura por 0,92 metros de largura, segundo as medidas publicadas por Tude Martins de Sousa.

A lápide não assinala a fundação da Capela da Misericórdia. Foi colocada para registar a responsabilidade assumida pela Santa Casa sobre uma fundação religiosa diferente: a Capela de Nossa Senhora da Sanguinheira.

Em 3 de março de 1642, D. João IV concedeu à Casa da Misericórdia de Amieira a administração e anexação da Capela de Nossa Senhora da Sanguinheira. O alvará justificava a decisão com as necessidades económicas da Misericórdia e determinava que o provedor e os irmãos passassem a administrar os bens e rendimentos daquela fundação, cumprindo integralmente os encargos instituídos pelos seus benfeitores.

O diploma régio ordenava a celebração de um contrato, a elaboração de um tombo dos bens, a conservação dos documentos e a existência de um capelão para as missas da fundação. Determinava igualmente a colocação, na parede da Igreja da Misericórdia, de uma pedra que perpetuasse a memória dos benfeitores e das obrigações assumidas.

A inscrição identifica como responsáveis da Santa Casa:

  • António de Góis Leborão, provedor;

  • Licenciado Alexandre de Matos, escrivão.

A lápide enumera, entre outros encargos, a celebração de duas missas semanais pelas almas dos benfeitores, a conservação de três outras ermidas, a disponibilização de sessenta círios para as principais festividades e a manutenção de três camas hospitalares, bem como da casa do hospital devidamente equipada.

As Memórias Paroquiais de 1759 permitem identificar as três ermidas cujo reparo estava associado à administração da Sanguinheira: Divino Espírito Santo, Santo André e Senhor Salvador do Mundo. O mesmo documento confirma que o hospital era administrado pelo provedor da Misericórdia e que a Santa Casa tinha a obrigação de o reparar e de manter três camas para os pobres.

Tude Martins de Sousa registou ainda uma última linha da lápide, que julgou poder ler como «Fez tudo Francisco Mousinho e mais irmãos». O próprio autor advertiu, porém, que esta leitura era difícil, pelo que deve ser considerada provisória até à realização de um novo levantamento epigráfico.

Duas capelas distintas

A Capela da Misericórdia e a Capela de Nossa Senhora da Sanguinheira são dois edifícios distintos.

A primeira situava-se dentro da povoação e era a igreja própria da Irmandade. A segunda encontrava-se fora da vila e correspondia a uma ermida e fundação piedosa com bens, rendimentos e obrigações próprios.

As Memórias Paroquiais de 1759 confirmam esta separação ao incluírem a Misericórdia entre as cinco ermidas existentes dentro da vila e Nossa Senhora da Sanguinheira entre as nove ermidas situadas fora da povoação.

A presença da lápide de 1642 na Capela da Misericórdia assinala, portanto, uma responsabilidade administrativa, religiosa e assistencial. Não significa que as duas capelas tivessem sido unidas ou que constituíssem o mesmo templo.

As obras de 1753 e o campanário

Uma deliberação da Mesa de 15 de fevereiro de 1753 determinou a realização de reparações na casa do hospital e a colocação, na capela, de um campanário de pedra destinado ao sino.

O campanário atualmente visível na fachada é tradicionalmente relacionado com esta campanha de obras. A documentação conhecida não permite, contudo, assegurar que o sino nele existente seja o primitivo ou determinar a data exata da sua colocação.

Um património de fé e misericórdia

A Capela da Misericórdia reúne diferentes momentos da história da Santa Casa: a data de 1554 no portal, a antiga campainha usada nos acompanhamentos fúnebres, a lápide régia de 1642, o campanário setecentista, a abóbada de nervuras e o retábulo-mor.

Mais do que um edifício religioso, a capela é um testemunho material de séculos de culto, assistência e solidariedade. A sua conservação representa um compromisso com a memória dos irmãos, benfeitores e habitantes de Amieira do Tejo que, ao longo das gerações, contribuíram para a missão da Santa Casa.

Fontes e bibliografia

  • SOUSA, Tude Martins de — «A Misericórdia de Amieira (do antigo Priorado do Crato): a sua antiguidade, a sua campainha, o seu compromisso», Arqueologia e História, série VI, vol. X, 1932, pp. 119–128. Consultar o volume.

  • UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA, Centro de Estudos de História Religiosa — Portugaliae Monumenta Misericordiarum, vol. 6, documento n.º 23: alvará de 3 de março de 1642. Consultar a obra.

  • SENA, António M. F. de — Memórias Paroquiais de Amieira (1759) e Vila Flor (1758). Consultar a edição.

  • SOUSA, Tude Martins de; RASQUILHO, Francisco Vieira — Amieira do antigo Priorado do Crato: subsídios para uma monografia. Figueira da Foz, 1936; reimpressão fac-similada, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982.

  • Município de Nisa — «Capela da Misericórdia de Amieira do Tejo — Monumento de Interesse Municipal». Consultar a ficha patrimonial.

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